sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Parece uma Amazônia

Por
Marcelo Bortoloti
Revista Veja - 05/09/2007

Países do Hemisfério Norte superam o Brasil na produção de animais da fauna brasileira




A produção de animais em cativeiro pode ajudar a preservação de espécies
ameaçada de extinção, como a onça-pintada: salvação

Qual é o habitat de jibóias, papagaios e saguis? As selvas de clima tropical das Américas do Sul e Central seria a resposta mais correta. Esses bichos, no entanto, estão se tornando habitantes da Europa, sendo cada vez mais comum encontrá-los na Inglaterra, na Holanda e na Alemanha.



Nas últimas décadas, os países do Hemisfério Norte transformaram-se em grandes criadores legais de animais de espécies originárias de locais como a Amazônia e o Pantanal. A lista inclui também as araras, os iguanas e os periquitos. O que impressiona é que a reprodução em cativeiro dessas espécies naqueles países já é maior do que no Brasil.

Inglaterra, com temperatura média de 5 graus nos meses de inverno, produz e exporta legalmente quase dez vezes mais saguis do que o Brasil. A Holanda tornou-se a terra dos papagaios, e de lá saem legalmente vinte vezes mais desses bichos do que do Brasil.

Os animais da fauna brasileira engordam o mercado mundial de pets, que movimenta 56 bilhões de dólares por ano - mas quem lucra com isso são os criadores europeus e americanos.

O que está por trás do desenvolvimento dessas criações é um avanço tecnológico notável. Foi possível produzir animais exóticos em larga escala no Hemisfério Norte após anos de estudos sobre como esses bichos se alimentam, se reproduzem e quais a temperatura e o tamanho ideal de viveiro para cada espécie.

No caso de araras e papagaios, uma das principais revoluções foi a produção em laboratório de um tipo de secreção normalmente expelida pelas aves adultas, que serve de alimento aos filhotes nos primeiros quatro dias de vida.

Com isso, além de se fazer a incubação artificial, tornou-se possível alimentar os filhotes artificialmente. Os cativeiros hoje são gerenciados por computador e têm aparelhos como raio X e ultra-som para acompanhar a gestação. Isso tudo permitiu um ganho de escala que ajudou a reduzir os preços.

Nos últimos dez anos, os criadores profissionais começaram a oferecer espécies legalizadas a preços competitivos, mais saudáveis e mais dóceis do que as que são encontradas livres na natureza.

Hoje, enquanto no Brasil uma jibóia custa 900 reais no mercado legal, lá fora o mesmo bicho é vendido pelo equivalente a 60 reais. Um iguana legalizado custa 1.200 reais no Brasil, enquanto nos Estados Unidos o preço é de aproximadamente 80 reais.

O mercado de aves de companhia cresceu muito na Europa, hoje um grande produtor. Os grandes criatórios estão na Holanda, na Alemanha e na Áustria. "É mais fácil arrumar um papagaio ou uma arara aqui na Europa do que mandá-los vir do Brasil", disse a VEJA Pedro Oliveira, criador de aves tropicais na cidade do Porto, em Portugal.

Não são apenas os produtores que lucram com esse mercado. Há uma indústria de acessórios que permite a qualquer morador da Suécia, por exemplo, criar uma arara ou um papagaio como se estivesse em plena Amazônia.

No caso das aves, existem gaiolas climatizadas e uma série de vitaminas, substratos e rações compatíveis com o padrão alimentar de cada espécie. Para os répteis, é possível comprar ambientes artificiais com pedras aquecidas e plataformas vibratórias para dar a impressão de que a comida está andando.

Lojas especializadas vendem camundongos para alimentar cobras, além de grilos, baratas e larvas de besouro para as aves. A Fluker's Crickets Farm, nos Estados Unidos, comercializa em média 20 milhões de grilos vivos por mês e faz entregas até pelo correio.

As lojas de animais de estimação americanas, além de uma enorme variedade de répteis, mamíferos e aves do mundo inteiro, oferecem espécies trabalhadas geneticamente para sofrer mutações que as tornam mais atraentes. Um exemplo é o peixe-neon, originário do Brasil. Lá fora, ele é produzido em cores diferentes das encontradas na natureza ou com as nadadeiras bem maiores.

Essas variedades abastecem um mercado fabuloso. Nos EUA, 71 milhões de lares possuem animais de estimação. No Brasil, a legislação permite a criação de animais silvestres em cativeiro. Faltam criadores bem preparados. "A cadeia de produção nacional não tem logística nem produção em série para abastecer o mercado. Faltam qualidade e quantidade", diz Francisco Tavares, da diretoria de fauna do Ibama.

Não existe por aqui nada parecido com o que há lá fora. Oitocentos e cinqüenta produtores comerciais estão cadastrados no Ibama. E muitos usam a criação como fachada para "esquentar" os animais. Ou seja, retiram os bichos da fauna silvestre e os registram como se tivessem nascido em cativeiro. Com isso, eles podem ser comercializados legalmente.



Criatório de animais silvestres na Espanha

Também não existe tecnologia nacional para esse tipo de produção. "Mesmo para criarmos espécies nacionais, temos de importar tecnologia da Europa", diz Paulo Machado, diretor da Aves Vale Verde, que tem 800 pássaros para reprodução.

O Brasil ainda está engatinhando na criação de animais silvestres para comercialização.
Animais capturados nas matas brasileiras são levados para o Hemisfério Norte desde a época do descobrimento. A prática só virou crime em 1967, com a criação da Lei de Proteção à Fauna.

Mesmo assim, traficantes de animais continuam enviando ilegalmente à Europa e aos Estados Unidos milhares de araras, jibóias, papagaios e saguis. Hoje, o tráfico de animais silvestres movimenta 20 bilhões de dólares por ano no mundo todo. Por isso mesmo, a produção em cativeiro é uma fonte alternativa, que ajuda a atender à demanda.

Desde 1975, a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas da Fauna e Flora Silvestres (Cites, da sigla em inglês) controla a exportação de animais em 172 países. Segundo a instituição, cerca de 270.000 bichos vivos são comercializados legalmente todos os anos. O dado não inclui o que é vendido internamente em cada país.

Nem as exportações entre os países da União Européia. A produção pode ser, portanto, muito maior. A continuar assim, não está distante o dia em que a maior parte dos papagaios do planeta vai falar mais inglês do que português.


FAUNA GLOBALIZADA

A produção de animais da fauna brasileira em cativeiros avança de tal forma que, entre 2000 e 2006, a Holanda exportou vinte vezes mais papagaios que o Brasil. Observe a comparação entre exportações brasileiras e de alguns dos maiores produtores do mundo, em seis anos, em espécies comercializadas.

Araras
Estados Unidos: 683
Brasil: 52

Papagaios
Holanda: 2213
Brasil:100

Sagüis
Inglaterra:520
Brasil: 61

Jibóias
Repúlica Checa: 12531
Brasil: 6

Iguanas
Estados Unidos: 13456
Brasil: 0

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Fonte: Planeta Sustentável

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