sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Sindrome do Auto Bicamento em Aves Ornamentais

Por
Melca Nicéia Altoé de Marchi,
Jussara Maria Leite Oliveira Leonardo,
José Maurício Gonçalves dos Santos

Resumo


A recente popularização da criação de aves ornamentais em cativeiro suscita a preocupação com o seu bem estar no que diz respeito à necessidade de sanidade interna e externa. Caso essas exigências não sejam atingidas, as aves desenvolvem uma síndrome que se caracteriza pelo arrancamento das próprias penas, causando, assim, ferimentos graves decorrentes da automutilação. A partir dessa problematização, a presente pesquisa realizou um levantamento da ocorrência desta síndrome nas aves de clínicas veterinárias, criatórios comerciais e particulares na região de Maringá, bem como os casos atendidos no hospital veterinário do CESUMAR, identificando as causas e definindo protocolos terapêuticos e medidas profiláticas indicadas nestas ocorrências. Nesta pesquisa, foram relatados 24 casos da doença, causada por deficiências nutricionais, traumatismo, parasitário, falta de sol, estresse emocional e ambiental. O tratamento foi feito visando a cura e uma melhor qualidade de vida à ave cativa. Os resultados mostram as diversas causas que levam a ave a se bicar, as conseqüências dessa automutilação para a saúde do animal, e a importância da associação do tratamento medicamentoso com medidas de controle e a correção do manejo, que na maioria das vezes é deficitário.


Introdução


As aves ornamentais estão sendo, cada vez mais, criadas em cativeiro, pois atraem pelas suas belas cores e formas, pela capacidade de imitação e por serem consideradas animais de companhia. Esse avanço tem causado preocupação quanto à saúde interna e externa dos animais.

O auto bicamento, ou arrancamento de penas são problemas encontrados com freqüência em clínicas aviárias, atingindo principalmente piscitacídeos e passeriformes, levando-os ao auto traumatismo (CUBAS, Z. S., 2006). Esta síndrome é caracterizada pelo arrancamento das próprias penas, podendo causar ferimentos ainda mais graves, decorrentes de uma auto mutilação. (CUBAS, Z., S., 2006). O grande problema enfrentado pelos veterinários e pelos criadores dessas aves é o de descobrir as causas que levam a ave a este comportamento. Tal dificuldade se deve às diversas etiologias e ao tratamento aplicado que, nem sempre, é o mais indicado e eficaz.
As causas mais comuns são: quadros de deficiência vitamínica e mineral; foliculites, inflamações e infecções do folículo da pena, por encravamento do bulbo; ectoparasitas como o ácaro vermelho, Dermanyssus spp., ácaros de penas (Cnemidocoptes), a sarna cnemidocóptica (CUBAS e GODOY, 2006); dermatites micóticas e bacterianas (RUPLEY, 1999); causas mecânicas são verificadas quando algumas aves começam a bicar o aparamento alar que deixa bordas lesionadas ou extremidades ásperas nas penas. Este bicamento pode se tornar um hábito e a ave  continuará a limpar exageradamente ou bicar as penas depois das normais já terem substituído as penas alares anteriormente danificadas (RUPLEY, 1999); causas comportamentais como falta de companhia, tédio, medo, frustração reprodutiva, superpopulação, perda de companheiro de viveiro, estresse por ruído de pessoas, podem causar reações adversas nas aves, fazendo com que elas arranquem as penas ou até se biquem até sangrar (BENEZ, S, M., 1998); o arrancamento de penas e auto mutilação também podem surgir a partir de um hábito nervoso. Cacatuas em particular, tem desejo de contato tátil e a atenção do seu dono, podendo levar a um comportamento obsessivo, compulsivo ou esteriotipado (SAGER); endoparasitas intestinais, como os protozoários Giardia ou Eimeria (CUBAS, Z., S., 2006); infecções respiratórias (CUBAS, Z., S., 2006); fumaça de cigarro (CUBAS, Z., S., 2006); falta de luz solar, necessária para a ativação da vitamina D, que promove a absorção de cálcio, causando deficiência na emergência da pena.

As áreas mais afetadas pelo auto arrancamento das penas são: peito, dorso e asas – regiões do corpo em que a ave alcança com o bico. Permanecem intactas as penas da cabeça e pescoço, locais inacessíveis para a ave (CUBAS e GODOY, 2006). Aves com este distúrbio crônico podem causar lesões irreversíveis nos folículos das penas, criando áreas definitivamente depenadas. Esse comportamento obsessivo pode evoluir para autoflagelação com lesões graves na pele e músculos (CUBAS, Z., S., 2006). O bicamento de penas e a automutilação são problemas comuns em aves de estimação e requerem testes diagnósticos para determinar a etiologia. O diagnóstico é um fator fundamental para que o tratamento obtenha sucesso, pois se trata de um procedimento laboratorial que examina e identifica uma doença pelo(s) seu(s) sintoma(s). Segundo FOWLER (1986), caso sejam observadas penas no pescoço e na cabeça, porém haja falhas e/ou falta de penas em qualquer outro lugar do corpo, sem evidência de alguma doença inflamatória de pele, deve-se supor que a ave está sofrendo da síndrome em questão. Sabe-se que os “bicadores” de penas comportamentais ou psicóticos são os mais difíceis de serem tratados efetivamente (RUPLEY, 1999).

O tratamento depende do diagnóstico da causa predisponente. O tratamento específico poderá incluir antibióticos, antifúngicos, antihelmínticos, antiparasitários, antiinflamatórios, analgésicos, anti-histamínicos, ácidos graxos ômega 3, suplementação nutricional, hormônio tireoidiano, antidepressivos, ansiolíticos e antipsicóticos. Em muitos casos, o resultado é frustrante, não se alcançando a cura definitiva. É fundamental oferecer melhor qualidade de vida à ave cativa, providenciando mais espaço, aves para companhia e reprodução, ambientes limpos, iluminados e arejados, fazer o enriquecimento ambiental e reduzir fatores de estresse (CUBAS, Z., S., 2006).

A automutilação é uma doença que traz sofrimento para a ave, assim como o sentimento de comiseração para quem se sensibiliza com elas, por isso, a partir do diagnostico da síndrome é possível encontrar um tratamento. A resolução do problema tem sido conseguida em algumas casuísticas, mas como as pesquisas científicas são poucas, este trabalho torna-se relevante, para que se identifique a causa ou o complexo de agentes etiológicos, controlando a doença, permitindo que a ave volte ao seu estado de sanidade ideal.

Sendo assim, este trabalho teve por objetivo realizar um levantamento da ocorrência desta síndrome entre as aves criadas e comercializadas na região de Maringá; Pesquisar as causas e conseqüências; Diagnosticar o etiológico da síndrome; Proceder com o tratamento específico e implantar medidas profiláticas capazes de controlar e até mesmo impedir esta ocorrência.


Material e Métodos


As visitas em clínicas veterinárias, criadores particulares e criatórios comerciais, e os atendimentos das aves apresentando a síndrome do auto bicamento no hospital veterinário do CESUMAR, foram feitos no período de agosto de 2008 a julho de 2009. Foram relatados 30 ocorrencias da síndrome do auto bicamento em aves ornamentais. Os exames laboratoriais de pele e penas, quando necessários, foram realizados no laboratório de parasitologia do hospital veterinário do CESUMAR, analisando as penas arrancadas encontradas na gaiola ou ambiente em que a ave vive e realizando raspados de pele para a visualização de parasitas. Exames de fezes foram realizados pelos métodos Willis/Molay, Faust e Hoffmann. O levantamento das causas prevalentes e incidentes foi obtido através da anamnese, investigando o histórico do animal, e através do quadro clínico apresentado, utilizando de recursos laboratoriais quando os dois últimos não foram suficientes para fechar o diagnóstico, necessário para a definição de protocolos terapêuticos e medidas profiláticas indicadas nestas ocorrências. Os resultados foram avaliados através de analise descritiva dos dados.


Resultado e Discussão


Dentre as ocorrências atendidas principalmente no hospital veterinário, a doença em questão foi uma das mais prevalentes neste levantamento. Assim, a síndrome pode representar um fator limitante para a criação de aves ornamentais. As causas da síndrome do auto bicamento em aves ornamentais foram relatadas no período de agosto de 2008 a Julho de 2009, estão na tabela 1.

Tabela 1. Causas do auto bicamento relatadas no período de agosto de 2008 a julho de 2009.

Número de aves Espécie Causa/Diagnóstico
2 Agaporn (Agapornis canus) Estresse ambiental (calor excessivo, excesso de visitantes grando barulho, incômodo, ect)
2 Agaporn (Agapornis canus) Parasitário (ordem Mallophaga)
4 Calopsita (Nymphicus hollandicus) Parasitário (ordem Mallophaga)
2 Calopsita (Nymphicus hollandicus) Falta de luz solar (erro de manejo)
1 Calopsita (Nymphicus hollandicus) Nutricional (apenas semente de girassol)
1 Canaário Belga (Serinus canarius) Nutricional (apenas semente de girassol)
1 Canaário Belga (Serinus canarius) Parasitário (sarna cnemidocóptica)
2 Cardeal (Cardinalis cardinalis) Falta de luz solar (erro de manejo)
1 Caturrita (Myiopsitta Monachus) Falta de luz solar (erro de manejo)
1 Faisão Canário (Chrysolophus Pictus) Estresse ambiental (excesso de aves por m²)
1 Jandaia (Aratinga auricapilla) Estresse emocional (perda de companheiro)
1 Jandaia (Aratinga auricapilla) Estresse emocional (ciúmes de outro animal)
1 Jandaia (Aratinga auricapilla) Estresse emocional (falecimento da dona)
7 Papagaio (Amazonae aestiva) Estresse ambiental (cativeiro restrito)
1 Papagaio (Amazonae aestiva) Estresse emocional (ausência da dona)
1 Papagaio (Amazonae aestiva) Estresse emocional (diminuição da atenção pelo proprietário)
1 Papagaio (Amazonae aestiva) Traumático (ausência de sensibilidade)
7 Pavão (Pavo cristatus) Estresse ambiental (excesso de aves por m²)
5 Periquito Australiano (Melopsittacus undulatus) Parasitário (sarna cnemidocóptica)
Fonte: Clínicas veterinárias, criadores particulares, criatórios comerciais e hospital veterinário do CESUMAR.

Foram registrados 5 casos da síndrome produzida por estresse emocional, que englobam desde divisão de atenção pelo proprietário, ausência do dono por morte, viagem, ciúmes pela presença de outro animal até solidão pela perda do companheiro. Cinco casos foram produzidos por estresse ambiental, em que ocorreram superpopulação de aves no mesmo ambiente; estresse térmico (calor excessivo); excesso de visitantes gerando barulho, movimento, incômodo, molestamento; estresse de cativeiro por restrição de espaço físico.

Das 13 causas parasitárias, foram observadas as ectoparasitoses como pediculose por falso piolho (ordem Mallophaga) em sete casos, e por sarna cnemidocóptica (Cnemidocoptes pillae) em 6 casos, acometendo os psitacídios. Duas ocorrências causadas por desordens nutricionais pelo fornecimento de uma dieta desbalanceada para o animal (apenas alpiste e apenas semente de girassol), foram observadas a ingestão das penas. Quatro casos produzidos por falta de luz solar, onde os proprietários não eram bem informados sobre a importância dos banhos de sol e so seu efeito anabólico nas aves. Apesar de (CUBAS, Z., S., 2006) não citar traumas físicos como uma causa para a ave se automutilar, esta pesquisa relatou a ocorrência de um caso de auto bicamento devido a falta de sensibilidade dos membros após trauma.

Independente da causa, as aves arrancavam as penas nas regiões de dorso, asas, peito, membros e presença de automutilação de pés e falanges em alguns casos. Segundo FOWLER (1986), caso sejam observadas penas no pescoço e na cabeça, porém haja falhas e/ou falta de penas em qualquer outro lugar do corpo, sem evidência de alguma doença inflamatória de pele, deve-se supor que a ave esteja manifestando a síndrome em questão.

Nos casos de estresse ambiental, estresse emocional, deficiências nutricionais, falta de luz solar e traumático, além do tratamento medicamentoso (cálcio oral, vitamina D3, pedra de cálcio, vitamina B12, vitamina A, e homeopáticos como Chamomila CH6, Brionya CH6), foi necessária a associação de medidas de controle e correção de manejo, aumento do tamanho da gaiola, enriquecimento ambiental com brinquedos, balanceamento e adequação da dieta com frutas e verduras coloridas e banhos de sol principalmente no período da manhã.

Nos casos de parasitoses, o tratamento medicamentoso foi feito com pulverizações de enxofre para o falso piolho (ordem Mallophaga) e ivermectina na água de beber para eliminar a sarna cnemdocóptica. Neste caso, o controle foi feito com a retirada do ninho, colocação da gaiola no sol e controle das aves urbanas como pardais e pombinhas.


Conclusão


A constatação de grande número de casos da Síndrome do autobicamento, registrados nesta pesquisa é um indicador de que as nossas aves silvestres, criadas em cativeiro, não estão sendo bem tratadas, por descuido ou por falta de conhecimento do proprietário ou criador.

A preocupação com o bem estar geral da ave é essencial para se evitar doenças, assim como o equilíbrio da ave é necessário para o bom funcionamento do seu sistema imune, defendendo a ave de fatores predisponentes e desencadeantes desta síndrome.

Tanto o veterinário que atende clinicamente essas aves, deve utilizar de seus conhecimentos para informar o proprietário e criadores sobre as causas predisponentes e estar atento na identificação das alterações nas aves no momento da consulta, como também os proprietários e criadores devem estar atentos para os a observação dos primeiros sinais da manifestação desta síndrome, pois quando o quadro clínico se torna evidente, a causa base já está instalada a um período considerável, e quanto mais tempo demorar para o inicio do tratamento, mais a resposta imune fica comprometida, dificultando a cura.

Conclui-se que medidas de controle e manejo nutricional, sanitário adequados são fundamentais para a criação de aves ornamentais, assim como a interação do proprietário com seu animal.


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Fonte: CESUMAR – Centro Universitário de Maringá Maringá – Paraná <http://www.cesumar.br/epcc2009/anais/melca_niceia_altoe_marchi.pdf>. Acesso em: 15 de jul. de 2013

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