Eu tive um Sonho

Por 
Álvaro Blasina

A realidade desejada por muitos passarinheiros pode deixar de ser um simples sonho com união de forças

Amigo leitor, o Brasil vive um momento histórico. Quando falamos em momento histórico, não necessáriamente nos referimos a momentos de glória e euforia. Neste caso, a época que nos toca viver é de desencontros, de impotência, de absoluta falta de diálogo no que refere à criação, em cativeiro, de passeriformes e aves em geral.

Vejo e acompanho desolação de criadores de altíssimo nível, honestos e comprometidos com a preservação, ao senteir a amarga sensação do injusto prejulgamento, humilhação. Tudo é dificil para quem se prontifica a reproduzir pássaros. O registro dos criatórios, relatórios complexos, extremas dificuldades para simplesmente obterem os anéis, e uma clara sensação de disposição em bloquear e dificultar a sua atividade.

Aqueles que se prontificam a realziar um trabalho de altíssimo nível na multiplicação da vida e preservação estão sem saber que caminho tomar para ter o direito de continuar com o seu trabalho honesto. Uns ainda apostam no diálogo, outros buscam o confronto pelas vias legais, e enquanto isso, a vida fica esperando.

Nunca tive a oportunidade de conversar longa e organizadamente com nenhum integrante da cúpula do IBAMA sobre esse assunto, mas, assim, como milhares de brasileiros, fico me indagando. Por que tanta "guerra" à reprodução de pássaros em cativeiro? Guerra fria, praticada na lentidão de tudo, nos tremendos entraves burocráticos e as infinitas dificuldades criadas para quem se prontifica a multiplicar a vida.

Por que tanta 
"guerra" à 
reprodução de 
pássaros em 
cativeiro?

A preservação das espécies passa inegavelmente pela conservação do seu habitat, pelo combate ao tráfego e pela reprodução em cativeiro.

O próprio IBAMA assim o entende. Basta verificar no seu próprio site com inúmeros projetos fantásticsos como o RAN que tem (dentre outras atividades) na reproduçaõ de répteis em cativeiro, uma das formas mais eficazes de preservação. O próprio IBAMA coloca no seu site "E pela importância do mesmo, o Governo, em 1990, já no âmbito do IBAMA, resolveu criar o CENAQUA - Centro de Conservação e Manejo dos Quelônios da Amazônia, com a finalidade de ampliar e revigorar as atividades e instituir coordenações especificas para as áreas de pesquisa, manejo na natureza, educação ambiental e de criação em cativeiro, para propiciar o máximo de ações que pudessem garantir a perpetuação dos quelônios amazônicos."

Um belíssimo exemplo que gostariamos de ver aplicado aos passeriformes e aves em geral. Qual seria o critério aplicado para estimular uns e "bloquear" os outros?

Creio que ninguém em sã conciência pode pensar  que multiplicar a vida possa ser um ato condenável e merecedor de todo tipo de entrave. Criar normas e disciplinar a atividade é, sem dúvida, necessário e bem-vindo. Mas, também me parece que deveria ser bem-vindo o apoio, o aplauso e o incentivo aos criadores, ações estas que estão muito longe de ocorrer por parte do Governo.

Fala-se que os entraves ocorrem, porque no meio dos passarinheiros existem pessoas inescrupulosas que se valem da lei para ludibriá-la e lucrar inescrupulosamente, "esquentando" pássaros capturas na Natureza. Certamente, isso deva acontecer, como diariamente vemos políticos corruptos que deveriam cuidar dos nossos interesses e funcionários públicos cometendo as mais brutais ilegalidades, ao invés de honrarem os seus cargos como verdadeiros servidores públicos.

Seguindo a mesma linha de raciocínio, as mesmas pessoas que usam esses argumentos para criar entraves à reprodução em cativeiro de passeriformes, seriam favoráveis a fechar o Congresso ou acabar com todos os serviços públicos.

Afinal, entende-se que o IBAMA tem como finalidade tanto a fiscalização como o estímulo à reprodução. Um sem o outro representa um trabalho incompleto onde a vida e as espécies pagam o pato.

O próprio órgão coloca "significa que os recursos naturais  devem ser utilizados com racionalidade para se obter o máximo de desenvolvimento, porém, com o máximo de conservação e preservação, visando sempre à sua manutenção para as gerações futuras."

Como, então, as gerações futuras poderão ver espécies cujos habitats estão sendo devastados e sua reprodução dificultada? Será que apenas monitorar a degradação é o suficiente ou seria inteligente ter a vasta legião de criadores honestos como aliados, para cumprir a sua missão?

Assim, caro leitor, eu continuo sonhando com um futuro próximo no qual este "momento histórico" apenas apareça registrado como um momento triste da ornitofilia. Como escreveu o John Lennon, "você pode pensar que sou um sonhador, mas eu não sou o único".

Criador de pássaros não é um psicopata que adora prender. É um preservador, um indivíduo que busca por todos os meios de oferecer às suas aves o melhor bem-estar possível por meio da melhor alimentação, dos locais mais adequados, da higiene e acompanhamento veterinário, etc. etc. Criador de pássaros se dedica a multiplicar a vida. Vida esta que reduzirá drasticamente a venda ilegal de animais caçados. Criador de pássaros renuncia a lazer, precisa do apoio familiar, ama o que faz e apesar das dificuldades, tem obtido resultados inacreditáveis, como a vasta multiplicação de curiós e bicudos, espécies que talvez, hoje, estivessem praticamente extintas, se não fosse pelo seu trabalho abnegado.

Não creio que nenhum brasileiro possa sentir orgulho de saber que dezenas de países do exterior reproduzem, individualmente, muito mais espécies nativas brasileiras do que o próprio Brasil. Algo está errado nessa realidade e cabe às autoridades reverter essa estatística.

Sonho, portanto, com que um dia, atoridades bem intencionadas dos orgãos competentes e das Confederações de Criadores, consigam sentar-se à mesa como aliados das mesmas causas:

  • O respeito pelas aves
  • O estímulo à reprodução, como forma de preservar
  • A colaboração na identificação e punição dos criminosos infiltrados.

Não é difícil. É só querer. Certamente, é o caminho que as espécies esperam, e do qual dependem para continuar existindo.


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Fonte: Revista Passarinheiros&Cia - ano X - nº 61 - 2010
Artigo extraído com autorização do Edilson Guarnieri - Diretor Editor 

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