segunda-feira, 10 de junho de 2013

Inseminação artificial ajuda espécie extinta

Brasília (05/06/2013) – Uma boa notícia para todos os que torcem pela volta da ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) à natureza: experimentos com inseminação artificial, realizados em ararinhas mantidas em cativeiro, resultaram no nascimento de filhotes. A espécie, nativa do Brasil, é considerada extinta na natureza desde 2000.

Os trabalhos foram desenvolvidos pela Al Wabra Wildlife Preservation (AWWP), no Qatar. A instituição é parceira do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) na implementação do Plano de Ação Nacional para Conservação da Ararinha-azul, que visa a reintroduzir a espécie no seu habitat histórico, a região de Caatinga no interior da Bahia.

Casal de ararinhas-azuis em cativeiro.


Como foi

A cada ano, a temporada reprodutiva é um dos momentos mais decisivos para as ações de conservação. Isso porque os problemas genéticos da espécie dificultam o desenvolvimento do programa reprodutivo em todo o mundo (atualmente, existem cerca de 80 aves, mantidas em cativeiro no Brasil, Qatar, Alemanha e Espanha). Esses problemas acabam reduzindo o sucesso do aumento da população da ararinha-azul.
Por isso, pesquisadores da AWWP, em parceria com a Parrot Reproduction Consulting, da Alemanha, decidiram, nesta temporada, dar uma ajuda à ararinha-azul no processo de reprodução por meio de inseminação artificial.

Logo que uma fêmea fazia a postura do seu primeiro ovo, os pesquisadores coletavam espermatozoides de machos selecionados e imediatamente os depositavam no oviduto das fêmeas de ararinhas-azuis, esperando que o próximo ovo fosse fertilizado antes que a casca se formasse. O processo foi repetido após a segunda e terceira postura, já que as ararinhas-azuis costumam pôr até quatro ovos.

Feito isso, os ovos foram colocados numa incubadora. Após sete dias, eles foram examinados para verificação da fertilidade. Dois de sete ovos inseminados artificialmente estavam férteis e se desenvolviam bem. Os ovos foram monitorados diariamente, até que, no vigésimo-sexto dia de incubação, os filhotes, enfim, nasceram.

Grande passo

Para o coordenador de Espécies Ameaçadas do ICMBio, Ugo Vercillo, a inseminação artificial da ararinha-azul é um grande passo no processo de reintrodução da espécie na natureza. “Há cinco anos, a inseminação artificial para a ararinha-azul era algo impossível. Graças aos esforços da Al Wabra Wildlife Preservation e da Parrot Reproduction Consulting esse feito se tornou realidade e nos deixa mais perto de reintroduzir a ararinha-azul na natureza”, destacou.

O primeiro filhote recebeu o nome de Neumann, uma homenagem ao executor da primeira inseminação artificial de sucesso em ararinhas-azuis, o médico-veterinário Daniel Neumann, da Parrot Reproduction Consulting e especialista em reprodução do Plano de Ação Nacional para a Conservação da Ararinha-azul, coordenado pelo ICMBio.

“Já realizei muitas inseminações artificiais em psitacídeos nos últimos anos, mas nenhuma foi tão especial quanto essa com as ararinhas-azuis. Ainda garoto, acompanhei o desaparecimento da última ararinha-azul na natureza e era meu sonho estar envolvido com a conservação desta espécie. Agora fui a pessoa que realizou a primeira inseminação artificial com sucesso. Ainda é difícil entender, mas isto me faz bem”, afirmou o pesquisador.

Tim Bouts, da AWWP, já considera a possibilidade de repetir a experiência da reprodução da ararinha-azul no Brasil. “Em parceria com a NEST, a AWWP maneja dez das onze ararinhas-azuis que estão no Brasil, juntamente com o governo brasileiro. Precisamos começar a reproduzir essas aves no Brasil e iniciar a prática de inseminação artificial o quanto antes”, destacou.

Veja o vídeo (em inglês) que mostra o procedimento:



(Observação: são mostrados quatro filhotes no vídeo. Dois nasceram com a técnica de inseminação artificial e dois pelo método tradicional de reprodução)

Sobre a AWWP

A Al Wabra Wildlife Preservation (AWWP), fundada pelo sheikh Saoud Bin Mohamed Bin Ali Al-Thani, na pequena península do Qatar, está ativamente envolvida na conservação da espécie em seu ambiente natural no Brasil. No centro reprodutivo no Qatar, a AWWP possui 64 ararinhas-azuis (77% da população mundial da espécie), das 83 ararinhas registradas no studbook da espécie. 

Juntamente com a NEST, a Al Wabra possui uma parceria para manejar dez ou onze ararinhas-azuis no Brasil. A AWWP também possui uma área de 2.380 hectares em um dos principais hábitats das ararinhas-azuis, próximo a cidade de Curaçá, na Caatinga baiana, visando a restauração desse habitat para a reintrodução das ararinhas-azuis. O Consultor de Manejo do Programa de Cativeiro da Ararinha-azul é membro da equipe da AWWP.

Plano de Ação 

O Plano de Ação Nacional para Conservação da Ararinha-Azul congrega os atores relevantes para a conservação da espécie e organiza todas as ações que precisam ser conduzidas para promover a reintrodução da espécie na natureza. Entre essas ações, está o aumento pupulacional da espécie em cativeiro e a preparação do seu habitat natural para receber as primeiras aves nos próximos anos.

São parceiros do PAN da Ararinha-azul, as seguintes instituições: AWWP, ACTP, Fundação Lymington, Nest, Parrots International, Parque das Aves, Universidade de São Paulo, SAVE Brasil, Funbio e Vale.


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