sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Falcões usam burca e 'fazem a unha' em hospital de Abu Dhabi

Por
Flávia Mantovani

Centro de referência se tornou atração turística da capital dos Emirados. Criar falcões de caça é uma paixão entre homens da região.

Falcão no Falcon Hospital; proteção de couro colocada sobre a cabeça da ave
se chama burca, mesmo nome dado à vestimenta muçulmana
(Foto: Flávia Mantovani/G1) 


Na sala de espera do hospital, um paciente aguarda para ser atendido, rodeado por homens vestindo "kanduras" – o longo traje branco típico dos muçulmanos. Dentro do ambulatório, uma fileira de doentes aguarda calmamente o atendimento, enquanto um deles é sedado em uma maca para se submeter a um procedimento. 

Eles estão no Falcon Hospital de Abu Dhabi, um centro veterinário especializado em atender falcões que, desde 2007, converteu-se também em uma das atrações turísticas mais visitadas da capital dos Emirados Árabes Unidos.

Falcão é anestesiado para se submeter aprocedimento
 (Foto: Flávia Mantovani/G1)

A instituição é referência internacional - recebe a cada ano cerca de 8 mil pacientes vindos de várias partes dos Emirados Árabes Unidos, assim como da Arábia Saudita, do Qatar, do Kuwait e do Bahrein.

Nesses países, é muito popular a prática da falcoaria, na qual os animais são treinados para caçar presas. O costume, que já foi um meio de sobrevivência para os antigos beduínos do deserto, transformou-se em um hobby na modernidade.

“Para eles, é uma forma de manter a tradição viva, uma ligação com o passado muito importante”, diz a diretora do hospital, Margit Muller. Segundo ela, os falcões ocupam um lugar importantíssimo para as famílias. Tanto que não podem ser comparados a animais de estimação. “É muito mais do que um pet. É como uma criança, um filho para eles”, afirma ela.

"O falcão é muito mais do que um pet. É como uma criança, um filho para eles" — Margit Muler, diretora do hospital

Algumas dessas "crianças" vivem com seus donos em apartamentos no centro da moderna Abu Dhabi. Mas só são soltos no deserto, durante o inverno, quando o clima é mais ameno, e mesmo assim em lugares específicos. “Eles são extremamente cautelosos com seus falcões. Escolhem sempre áreas seguras para soltá-los, longe de postes de eletricidade e de outros perigos”, diz Margit.


Manicure de falcão


Imagens mostram funcionário fazendo 'manicure' em falcão; na sequencia,
animal é anestesiado e suas garras são cortadas e lixadas
 (Foto: Flávia Mantovani/G1)

O Falcon Hospital fica em uma casa na estrada entre Dubai e Abu Dhabi. O jardim florido, em um terreno onde antes havia apenas areia, é o orgulho de Margit, que é alemã e mora nos Emirados há 12 anos. É ela quem conduz os visitantes durante o tour.

A diretora Margit Muler e um funcionário
 (Foto: Flávia Mantovani/G1)

A instituição tem vários setores: ambulatório, centro oftalmológico, sala de cirurgia, unidade de radiografia digital e aviário, entre outros.

Como quase não existem  equipamentos criados especificamente para esses animais, muitos dos utilizados por lá são adaptados de aparelhos humanos, como incubadoras para recém-nascidos.

No dia da visita do G1, havia um falcão sendo operado e outra acabara de ser anestesiado para receber cuidados com as garras. O funcionário cortou as unhas com uma tesoura, removeu o excesso de queratina e usou uma lixa elétrica para ajustar a curvatura – se não houver esse cuidado, o animal acaba se machucando com a própria garra, diz o profissional.


Beduínos e xeiques 


Falcão na sala de espera do Falcon Hospital de Abu Dhabi
(Foto: Flávia Mantovani/G1)

Margit explica que esta é a época de mais movimento no hospital, já que é quando os filhotes chegam dos centros de reprodução. Além disso, é no clima mais frio que os falcões mais velhos vão para lá serem treinados.

Um dos momentos mais esperados pelos turistas é a hora de segurar um falcão em seu braço, usando uma grande luva de couro para proteger a pele das garras do animal. Tudo é registrado com câmeras fotográficas, é claro.

Falcões no ambulatório (Foto: Flávia Mantovani/G1)

Também há uma demonstração de um falcão comendo um pássaro. Pede-se especial atenção para o barulho dos ossos sendo triturados, que mostra a força da arcada dentária do bicho – essa parte certamente não é a favorita dos visitantes mais sensíveis.

Depois de levar os turistas para um corredor onde são exibidos os vários troféus e medalhas recebidos pelo hospital, tanto da área de veterinária quanto de turismo, o passeio é finalizado em uma casa separada que abriga um centro de conferências e um pequeno museu.

Nesse museu há diversas fotos dos xeiques do país com seus falcões. “Olhem só, essa foto fala mais do que mil palavras", diz Margit, apontando para a imagem em que um deles olha carinhosamente para a sua ave. "É como se ele estivesse olhando para o seu bebê. Essa é a relação. É uma conexão com o passado. É muito bonito de ver”, completa.


8 CURIOSIDADES SOBRE OS FALCÕES


'Burcas' para falcões (Foto: Flávia Montovani/G1)
Eles usam burca

No hospital, os falcões usam uma proteção de couro na cabeça que tampa seus olhos e os mantêm calmos, evitando que eles ataquem os demais "colegas" atendidos no ambulatório.

Essa proteção é chamada de burca, mesmo nome dado à vestimenta feminina que tampa o corpo e o rosto, usada por algumas muçulmanas mais ortodoxas.



R$ 115 mil por uma fêmea

As fêmeas são maiores, mais fortes e caçam melhor do que os machos. Por isso, valem mais: se um macho pode ser adquirido por cerca de US$ 1.000 (cerca de R$ 2.300), uma fêmea não custa menos do que US$ 4 mil (mais de R$ 9 mil). As que vêm de linhagens renomadas podem custar até US$ 50 mil (mais de R$ 115 mil).

Passa de falcão (Foto: Flávia Montovani/G1 )
Nome, passaporte e visto

Os falcões ganham nomes que têm a ver com suas habilidades. Se ele é muito rápido, pode ser batizado com uma palavra que lembre velocidade, por exemplo. O mesmo vale para aqueles que voam muito alto ou que são mais ativos, por exemplo.

O curioso é que eles têm seu próprio passaporte, usado quando viajam com seus donos.



Amigos do homem

Falcões não atacam seres humanos, pois não veem os humanos como inimigos. Seus predadores naturais são as águias, e as fêmeas são grandes e fortes para poder lutar contra elas enquanto estão guardando ovos e filhotes.


Aviário onde os falcões ficam durante o  período
 de troca de penas; local tem até  ar condicionado
 (Foto: Flávia Montovani/G1)
Com direito a ar-condicionado

A troca de penas dos falcões acontece todos os anos por um longo período: seis meses. Nesse período, eles ficam mais desprotegidos e podem sangrar até morrer se sofrerem um acidente. Para evitar isso, alguns donos preferem deixá-los nesse período em aviários específicos (no Falcon Hospital há alguns). Lá, eles podem voar e se exercitar em segurança.

Como esse processo ocorre nos meses mais quentes e as temperaturas em Abu Dhabi podem chegar a 50°C, esses aviários têm ar condicionado, que mantém temperaturas diferentes em lados opostos do recinto. Assim, agrada-se tanto aos falcões mais friorentos quanto aos que preferem o ambiente gelado.


Treino de 'musculação'

Falcão come pássaro em demostração no Falcon Hospital
(Foto: Flávia Montovani/G1)

Os falcões são adestrados com “presas artificiais”, que substituem patos, coelhos, gazelas e outras presas reais.

Funciona assim: eles são levados para o deserto e o objeto que imita a presa é jogado longe com uma longa corda. Quando a ave está perto, a corda é puxada e ela precisa subir e descer novamente para pegá-la.

Após várias tentativas, o dono deixa que ele pegue o objeto e lhe dá uma presa real como recompensa. O processo fortalece os músculos do falcão e lhe confere mais destreza durante a caça.


Foto de xeique com seu falcão
(Foto: Flávia Montovani/G1)
'Musas inspiradoras'

Um dos costumes no país é que os homens se reúnam em volta de uma fogueira no deserto, aós um dia de caça com seus falcões. Enquanto as presas cozinham no fogo, eles conversam sobre a performance das aves naquele dia, cantam músicas e entoam poemas dedicados a elas.

Cada dono um estilo

Os falcões nunca chegam para seus donos já adestrados. O treino faz parte do hobby, e cada dono gosta de conduzi-lo de um jeito único. Há aqueles que querem que ele se especialize em caçar apenas um tipo de presa (uma espécie de coelho, por exemplo), e outros que preferem uma ave mais generalista.



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Fonte: G1 - Turismo e Viagem. Disponível em: http://goo.gl/nrcBjp. Acesso em 8 de nov. de 2013.

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