sábado, 1 de agosto de 2015

Doença do acúmulo de ferro em aves

Por
Larissa Quinto Pereira1
Maristela Lovato2

Como definição hemossiderose é o processo patológico caracterizado pelo acúmulo intracelular de ferro sem outras evidentes e hemocromatose é o processo mórbido em que o acúmulo excessivo de ferro tem como consequência alterações morfológicas e/ou funcionais nos órgãos afetados. Nos animais os termos "Doença do Acumulo de Ferro" (do inglês "Iron storage disease") e "Doença da Sobrecarga de Ferro" (do inglês "Iron overload disease") são utilizados para identificar o processo patológico decorrente do acúmulo de hemossiderina no fígado e em outros órgãos.

Os depósitos de ferro podem ocorrer como condição primária, de origem hereditária, ou como processo secundário resultando de intoxicações, anemia, consumo excessivo de ferro e outras condições patológicas. A hemossiderose também está associada ao aumento na prevalência de infecções, neoplasias e hepatopatias. em aves os acúmulos hepáticos de ferro, associados ou não à doença, tem sido descritos em diversas famílias ou ordem de aves.


A absorção de ferro é necessária na prevenção de anemias e na resposta imune. O ferro é absorvido pela mucosa intestinal, principalmente na porção duodenal e muitas das moléculas envolvidas na absorção do ferro são comuns para aves e mamíferos, mas existem diferenças importantes entres estes grupos e também entre espécies nesses grupos. Quando comparadas espécies não suscetíveis como galinhas, que não necessitam de um sistema muito eficiente de acúmulo de ferro, com uma espécie suscetível como mainás, que em vida livre consomem alimentos com pouco ferro e necessitam de uma alta taxa de absorção, ocorre uma variação na expressão de genes reguladores da absorção do ferro nos eritrócitos. Em mainás estes genes são expressos ao logo de todo o intestino e em maior proporção que galinhas, facilitando a entrada de ferro no organismo e, consequentemente, seu depósito.

A absorção de ferro pode ser influenciada pelo tipo de dieta, espécie, estado sanitário, componentes da dieta entre outro fatores. O pH intestinal também interfere na transformação e absorção de ferro, nas aves este pH é menor que em mamíferos e adição de ácidos, como a vitamina C, na dieta contribui para maior disponibilidade de ferro. Espécies que em vida livre ingerem alimentos com pouca quantidade de ferro tendem a ter um sistema de absorção muito mais eficiente. A Vitamina C é comumente adicionada nas rações comerciais, mas em algumas espécies de aves, esta vitamina é bio-sintetizada não sendo necessária uma suplementação.

As rações formuladas para aves tem como parâmetro os níveis de ferro utilizados por galinhas domésticas. Para muitas espécies de aves frugívoras ou insetívoras estes níveis estão acima do necessário, ocasionando o acúmulo do ferro utilizado. Algumas espécies psitacídeos possuem como fonte de alimentos frutos ou sementes de uma pequena variedade de plantas, como os papagaios-charão que determinada época do ano alimentam-se principalmente de pinhão (semente de araucária). Esta semente possui níveis de ferro de 7,2 mg Fe/Kg, enquanto os níveis nas rações comerciais variam de 100 a 500 mg Fe/Kg.

Tucanos são conhecidamente sensíveis ao acúmulo de ferro, estás aves além de receberem dietas com baixos níveis de ferro, não devem sem alojadas em gaiolas ou recintos de ferro. Podendo ocasionar a morte por hemocromatose em tempo reduzido. Várias espécies de lóris também podem ter hemocromatose hepática devido ao consumo de ração com níveis muito elevados de Ferro. Este mineral é facilmente adicionado durante a fabricação do alimento, mas sua redução é muitas vezes difícil e onerosa, o que facilita encontrar uma concentração maior que a indicada na embalagem. Para aves com predisposição a "Doença do Acúmulo de Ferro" níveis maiores que 25 mg Fe/kg podem ocasionar depósitos no fígado e em outros órgãos como baço e rins.

O depósito de ferro pode predispor ou estar associado à hepatopatias e doenças infecciosas. No fígado o acúmulo crônico que pode ocasionar lesões no órgão, como cirrose e fibrose, comprometendo seu funcionamento. Para muitas bactérias o Ferro é um elemento essencial para sua replicação e infecções por E. coli e Salmonella podem estar presentes em aves com hemossiderose.

O diagnóstico na ave viva é difícil, a concentração de ferro no sangue total não demonstra uma forte correlação com a capacidade de armazenamento de hemossiderina, não sendo um parâmetro confiável para o diagnóstico. A biópsia hepática é o  único método aceito para o diagnóstico definitivo. Muitas aves  morrem repentinamente sem demonstrar sinais clínicos, sendo que na maioria dos casos a doença é diagnosticada após a morte. 

O fígado (figura 1), na necropsia, pode apresentar uma coloração com aspecto 'bronzeado' devido ao depósito de hemossiderina no órgão. A hemossiderina pode ser visualizada nos cortes histológicos corados com hematoxilina e eosina como um pigmento amarelo-ouro a castanho. Na coloração de Azul da Prússia este pigmento é tingido de azul, facilitando a visualização e podendo ser mensurado pela morfometria computadorizada, estimando o grau de hemossiderose. Esse processo é de simples execução e apresenta uma alta correlação com o nível de ferro depositado no tecido. Pode ser utilizado em biopsias hepáticas para auxiliar na evolução da doença.

Figura 1 - A: Fígado com coloração levemente bronzeada com grau de 
hemossiderose 1,87%; B: Fígado com coloração bronzeada em toda 
extensão do órgão com grau de hemossiderose 33,21%. Espécie da ave: 
Amazona pretrei.

Alguns tratamentos têm sido propostos para controlar a doença como a diminuição dos níveis de ferro na dieta, utilizando rações específicas para espécies sensíveis com níveis menores que 25 ppm. O uso de quelantes parenterais como a desferroxamina é pouco descrito e sem muito sucesso no tratamento de animais.

Outros quelantes como tanino e chá preto também tem sito utilizados com certo sucesso, especialmente quando aliados a dietas com níveis baixos de ferro. A flebotomia foi utilizada com êxito em várias espécies de aves como tucanos e estorninhos. Como o diagnóstico em aves vivas é difícil, aconselha-se a utilizar rações e alimentos com baixo níveis de ferro para espécies conhecidamente suscetíveis e nos casos por cada criatório.


Médica Veterinária, Mestre. NEPAS.
Médica Veterinária, Doutora, Coordenadora do Laboratório Central de Diagnóstico de Patologias Aviárias - NEPAS/LCDPA/DMVP/CCR/UFSM.


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Fonte: Revista FOB. Ano XXI - Nº 86.

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