quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Clamidiose

Por
Dr. Jeferson Rocha Pires
 
É uma doença provocada pela bactéria Chlamydophila psittaci que cada vez mais tem presentado uma grande importância para quem trabalha com aves no Brasil. Existem relatos de mais de 460 espécies de aves sensíveis a este agente que também pode acometer o homem se tratando assim de uma zoonose. Sua gravidade pode variar de inaparente a quadros clínicos severos que podem levar a morte dos animais em pouco tempo de contaminação.Cada vez mais médicos veterinários que trabalham com animais selvagens tem se deparado com animais positivos para esta doença, fato que acaba gerando grande preocupação já que muitos destes animais vieram de criatórios que possuem animais devidamente legalizados, mas que por um motivo apresentam falhas em seu manejo sanitário.

Estes animais na maioria dos casos vão parar na mão de crianças que são considerados o grupo mais sensível e com isso acabam desenvolvendo o quadro de Clamidiose. Com esta ocorrência, lojistas e criatórios acabam susceptíveis a processos judiciais já que forneceram um animal doente proporcionando assim um risco à saúde destas pessoas. Estes animais no momento da venda podem apresentar quadros típicos de clamidiose como: conjuntivite (uni ou bilateral), prostração, sonolência, fezes volumosas mal digeridas e esbranquiçadas quando ressecadas sendo este quadro característico de animal com pancreatite (figura 1), quadros respiratórios (figura 2), hepatite, sinusite, enterite, diarréia, poliúria, infertilidade, e nos estágios finais quadros neurológicos. Todos estes sinais podem se apresentar juntos, solitários ou não aparecerem já que indivíduos podem ser portadores assintomáticos. Um bom exemplo de portadores assintomáticos são animais vindos de vida livre. Estes muitas vezes não apresentam quadro clínico nenhum, mas eliminam esta bactéria no ambiente contaminando pessoas e animais. Infelizmente a grande arma que os criatórios têm na mão contra o tráfico, seu principal concorrente, que é o fato dos animais virem com a certeza de não estarem levando nenhuma doença com eles acaba sendo deixado de lado já que muitos animais comercializados por criatórios são positivos para clamidiose assim como os animais de vida livres vindo pelo tráfico, os quais existem relatos de mais de 96,5% virem a óbito devido a esta doença. Um grande problema dentro de criatórios é o fato de que é necessário apenas um animal positivo, mesmo que assintomático, para que ocorra a disseminação da bactéria dentre todos os animais. Muitas vezes os animais que vão apresentar o quadro clínico serão os imunocomprometidos, que geralmente são os filhotes que saíram do criatório e estão sendo vendidos em lojas.


Outro fator que facilita a sua disseminação é o fato da clamídia se apresentar de duas formas, a reticular e a elementar. A reticular é a que se multiplica dentro das células do animal provocando o quadro clínico e a forma elementar é a que estará no animal e no ambiente sendo esta metabólicamente inativa, ou seja, antibióticos e falta de nutrientes não são um problema para esta podendo permanecer durante longos períodos em condições adversas. A eliminação das formas elementares nas aves ocorre de forma intermitente o que dificulta também o diagnóstico já que somente uma amostra pode não ser o suficiente para se confirmar animais negativos, sendo necessários pelo menos três coletas com intervalos de três a cinco dias entre elas.

O tratamento deve ser realizado pelo médico veterinário de acordo com sua droga de escolha, porém deve ser observado que alguns dos antibióticos escolhidos não podem ser utilizados juntamente com suplementação de cálcio já que este pode impedir a ação de alguns antibióticos. A maior parte dos tratamentos é realizada por 45 dias e os animais devem ser testados novamente para confirmar se o tratamento foi eficaz. Além do tratamento do animal é importante o tratamento ambiental, para evitar a recontaminação pela presença do agente no ambiente. Deve ser lembrado também que a maioria dos produtos que possuem ação contra este agente tem sua eficácia diminuída na presença de matéria orgânica, devendo o ambiente ser devidamente lavado antes de ser desinfetado.



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Jeferson Rocha Pires
Médico Veterinário, Mestre em Clínica e Reprodução veterinária, Professor da disciplina de ornitopatologia na Universidade Estácio de Sá, Professor e coordenador do curso de pós graduação em Clínica e Cirurgia em animais selvagens pelo Instituto Qualittas de Pós graduação.

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