sábado, 2 de janeiro de 2010

Em voo livre para sempre

“Afinal, os filhos já tinham batido asas para os próprios ninhos, voaram em direção às próprias vidas e ela estava só em seu envelhecer”

Ele sobreviveu a queda do 1º andar, apesar de a gaiola ter se espatifado no chão. Altivo, voou até a árvore em frente ao prédio de sua dona e ficou lá por uns tempos, até amanhecer um dia na mesma janela de onde caiu. Emocionada, a dona resgatou o canário e a própria alegria dela, que havia voado junto com o pássaro. Comprou uma gaiola nova, pois ele merecia.

Neste dia, a dona caprichou na porção de alpiste e de jiló, na água da banheira para que ele se refrescasse depois de tanto esforço. Cantou para ele o mesmo estribilho de todas as manhãs: “Meu branquinho da pena dourada!”. Ela repetia a saudação matinal para o canário, presente do seu filho que amava os pássaros, os bichos, os peixes e as plantas.

A varanda da casa do filho, em Sete Lagoas, na Região Central de Minas, pertencia aos pássaros. As gaiolas decoravam a vida do filho, além de rodear o jardim com o cântico de cada um. Um deles, inclusive, se chamava Cauby, o cantor preferido do dono da casa.

Durante muitos anos, o pássaro que ele dera de presente à mãe foi companheiro daquela senhora. Ela cuidava dele com esmero. Afinal, os filhos já tinham batido asas para os próprios ninhos, voaram em direção às próprias vidas e ela estava só em seu envelhecer. O pássaro preenchia os seus dias, espantava a solidão, pois lhe dava a impressão de que algum ser vivo ainda necessitava de seus cuidados, dependia dela para continuar cantando.

Os dois viveram juntos por muito tempo. A cada visita de domingo, o filho dela se orgulhava de ver o pássaro na casa da mãe, cantando cada dia mais afinado. Era bonito de se ver e ouvir: ele estufava o peito, subia no poleiro mais alto da gaiola e cantava.

O pássaro de Luiz Carlos só não sabia que teria que sobreviver, mesmo depois da morte do dono e da mãe dele. O primeiro partiu em maio de 2008. A mãe Amélia não agüentou a morte do filho e se desencantou da vida. Durante um bom tempo não queria nem mesmo olhar para o canário, que teve de ser cuidado por outras pessoas da casa.

A cada amanhecer ela desviava o olhar da gaiola, porque a presença do pássaro lhe lembrava a ausência do filho. O pássaro sentiu o afastamento da dona: parou de cantar e de alegrar a vida dela, que não encontrava mais motivos para continuar. Aos 91 anos ela se quedou à morte do filho e partiu sete meses depois.

O pássaro sobreviveu, apesar do silêncio que cobriu a casa depois da partida dos dois. Os outros moradores continuaram a tratar dele com carinho, mas o pássaro não mais ouvia a voz da velha senhora a cantar o mesmo estribilho: “Meu branquinho da pena dourada!”. Foi empoleirando os seus dias, um depois do outro, e até aceitou o desafio de mudar de casa com a filha e o neto daquela velha senhora que acabara de partir.

A tarefa diária de cuidar do pássaro passou a ser do neto, que sempre observava a quietude daquele que por muito tempo fez a festa na casa da velha senhora. Até que no fim de semana, o pássaro amanheceu morto no fundo da gaiola.

O que fazer com um pássaro morto no fundo da gaiola? Sozinha em casa, outra filha Amélia pensou muito até decidir enrola-lo em um pano branco. Amarrou tudo com uma linha colorida e saiu à procura de uma árvore, de uma sobra para depositá-lo. Uma tristeza tomou conta de tudo enquanto ela procurava um lugar digno para enterrar o canário. Ele merecia! Depois de andar muito encontrou uma palmeira, bem perto do Parque Municipal, onde sua dona caminhava todos as manhãs enquanto deu conta. Num ritual de despedida, ela deixou o canário branco da pena dourada debaixo do tapete de folhas da primavera. Mais um adeus, desta vez de um pássaro, em seu eterno bater de asas, agora sema prisão de uma gaiola, em vôo livre para sempre.

ESTADO DE MINAS – Domingo , 1º de novembro de 2009

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