quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Uma Bomba Prestes a Explodir

Por 
Álvaro Blasina

Reflexão sobre procedimentos incorretos de alguns criadores

Toda atividade de cria em cativeiro ou confinamento representa uma alteração das características originais de cada espécie no sentido de que, essas atividades para serem economicamente viáveis ou práticas implicam o drástico aumento das concentrações populacionais.

Além da alta concentração, na reprodução dirigida a seleção Darwiniana (predominância dos reprodutores mais fortes) não é levada em conta, pois o interesse é dirigir uma população geneticamente para a fixação de determinadas características genéticas.

Fica assim criado um ambiente muito propenso ao desenvolvimento de microorganismos patogênicos e o aprimoramento das mais diversas doenças.

Bactérias, fungos e vírus encontram um meio ideal para o seu desenvolvimento. Na produção industrial de animais confinados, principalmente na avicultura, suinocultura e animais de granja em geral, a consciência dos riscos que as doenças infecto-contagiosas representam levaram a medidas sanitárias severas no monitoramente veterinário, estrito controle das entradas e saídas ao estabelecimento, controle de qualidade dos alimentos, etc.


Na canaricultura e ornitofilia em geral estamos realmente muito longe dessas realidade por razões óbvias de economia de escala. Não temos meios de fazer um ambiente controlado para o ingresso de microorganismos estamos, portanto, propensos ao aparecimento de doenças por eles provocados.

Milhares de trabalhos científicos são dirigidos para o melhoramento sanitário dos plantéis avícolas sem o uso de antibióticos que tema sua utilização extremamente restrita, uma vez que os consumidores modernos se negam a receber no seu prato resíduos de medicamentos, hormônios e outros aditivos prejudiciais à saúde.

Enquanto os centros de produção avícola contam com os mais modernos recursos tecnológicos para criar barreiras sanitárias eficazes, apoio profissional veterinário de primeira ordem, etc., nos nossos plantéis é bastante difícil aplicar método tão eficaz de prevenção às doenças.

É por essa razão que todo ano recebemos as mais variadas notícias dos nossos colegas criadores quanto ao sucesso ou fracasso do período de cria. A mortalidade de filhotes e/ou matrizes não é incomum.

O que fazer então para enfrentar essa adversidade e encontrar uma solução para deter as baixas de filhotes e adultos?

Muitos colegas criadores, na busca de evitar esses dissabores simplesmente recorrem ao uso indiscriminado dos antibióticos aplicando altas doses dos mesmos tanto plantel como aos filhotes nos seus primeiros dias de vida. Até artigos foram publicados sugerindo que a melhor forma de criar seja fornecendo uma bateria de produtos para “prevenir” morte de filhotes.

Entendo que esta prática seja extremamente perigosa uma vez que é sabido que um dos maiores problemas da infectologia é a crescente resistência das bactérias aos antibióticos, fruto do uso indiscriminado e irresponsável dos mesmos, em dosagens que não têm acompanhamento do profissional competente.

Na infectologia humana, se diz que estamos saindo da era dos antibióticos para uma era posterior em que as bactérias tornam a matar como outrora. Na canaricultura, certamente está se contribuindo muito para esse fato ocorrer a curtíssimo prazo, uma vez que a esmagadora maioria lança mão desse recurso buscando o resultado imediato sem a menor preocupação do risco que isso implica. É a postura daqueles que pouco se preocupam com os gravíssimos indicadores ecológicos argumentando que não estarão na Terra quando a água  faltar, o mar crescer, ou os desertos avançarem.

A indicação dos profissionais:
  1. Coletar material para realização de cultivos;
  2. Identificar em laboratório o agente patogênico;
  3. Fazer o antibiograma para saber qual antibiótico o agente é sensível ou resistente;
  4. Indicar o antibiótico mais recomendado e o tratamento mais oportuno no que refere a dosagem e tempo.

Sem querer passar dramatismo exacerbado, creio que temos a obrigação de refletirmos sobre os corretos procedimentos a serem tomados quando nos acomete um problema de ordem infecciosa assim como as medidas mais corretas na prevenção de doenças desse tipo.

Da mesma forma que evoluímos do ponto de vista administrativo, estrutural e competitivo, cabe sem dúvidas uma reflexão sobre os procedimentos que os criadores estão adotando no que se refere à responsabilidade na condução dos plantéis do ponto de vista sanitário. Atenção especial deverá ser dada ao uso indiscriminado dos antibióticos em todas as fases do ano, pois com certeza um ato individual poderá ter reflexos negativos em inúmeros plantéis uma vez que é tão comum o intercâmbio de matrizes entre os criadores visando o melhoramento genético.

É preciso muito cuidado, pois o sucesso aparentemente de hoje pelo uso indiscriminado dos antibióticos poderá ser uma bomba prestes a explodir com sérias conseqüências para todos.


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Fonte: Revista Passarinheiros&Cia - ano X - nº 59 - 2010  

Artigo extraído com autorização do Edilson Guarnieri - Diretor Editor  

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