quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Asas para voar

Por
Álvaro Blasina

Uma visão crítica de ações que dificultam e às vezes impedem a tranquila criação de aves em cativeiro.

Certo dia, numa das tantas cidades do mundo, um senhor de classe média esta em seu apartamento. Acaba de chegar uma suculenta pizza, ele se senta no sofá da sala, liga a televisão para ver o tão esperado jogo de futebol e quando vai tomar o primeiro gole de cerveja, que acaba de pegar na geladeira, toca a campainha.

Trata-se de uma comitiva. Estranhando o número de pessoas que se fazem presentes, pergunta o que elas desejam e começa assim o seguinte diálogo:


Comitiva | Estimado cavalheiro... vimos aqui porque desejamos o seu bem...

Senhor | Muito obrigado, mas... do que se trata?

Comitiva | Viemos para lhe devolver a liberdade...

Senhor | Como?

Comitiva | Chegamos à conclusão de que o senhor está privado da sua liberdade aqui neste apartamento. O senhor tem suas pernas para correr livremente pelos campos e não esta podendo correr...

Nós vamos levá-lo até o coração da Amazônia, onde seus ancestrais vivem livremente e ali vamos soltá-lo. Desta forma estará no meio da Natureza e poderá correr livremente o quanto quiser.

Senhor | Vocês devem ter pirado. Em primeiro lugar se sentem donos e senhores da verdade ao manifestarem tanta certeza sobre os meus desejos. Eu não quero sair deste conforto. Tenho água limpa na torneira, comida na geladeira, ar condicionado para o verão e aquecimento para o inverno, a minha cama arrumadinha, médico, nutricionista, etc. etc.

Comitiva | O senhor não entende. Nós chegamos à conclusão de que está passando por um estado de estresse e deve recuperar a sua liberdade. Correr, correr e correr porque para isso tem suas pernas.

Senhor | Por favor, vocês não entenderam. Eu sou um homem civilizado. Se vocês me levam para aquele meio não serei capaz de sobreviver. Terei que usar minhas pernas para fugir dos predadores, para buscar esconderijos para conseguir água e comida etc. Não terei resistência física para tanto e será muito provável que morra rapidamente. Eu já não consigo viver onde meus ancestrais viviam. Prefiro o conforto da cidade, tudo ao meu alcance, proteção dos predadores, do frio, do calor, da fome e das doenças. Respeito profundamente toda a vida nativa, mas eles lá e eu aqui.

Comitiva | Ainda assim senhor, como nós sabemos exatamente o que é melhor para o senhor, vamos levá-lo para o meio da natureza, pois é certo que é tudo que o senhor deseja. Viver a sensação de “liberdade”.

Esta estória pretende ser reflexo da “evolução” pela qual tem passado a humanidade, buscando a praticidade e assim se concentrado em grandes metrópoles, querendo a comodidade de ter ao seu alcance alimentos, saúde, educação, água para beber, para o banho, proteção contra as inclemências do tempo, segurança, etc.

Ainda que morando em verdadeiras “selvas de pedra”, a chamada “sociedade civilizada” em sua esmagadora maioria traz uma profunda necessidade de manter contato com a Natureza. Não imaginamos assim um ambiente sem a presença de plantas, animais de estimação, um aquário, ou qualquer outro integrante do reino animal. Desta forma, acompanhando o “homem civilizado” vieram algumas espécies “domesticadas” que se adaptam perfeitamente à vida em cativeiro ao ponto de (assim como o homem), hoje não suportarem mais a sobrevivência nos seus habitats naturais.

O homem passou assim de “selvagem” a “civilizado” e os animais que o acompanharam passaram de “silvestres” a “domésticos”. Cães, cavalos, gatos, pássaros, roedores e tantos animais de estimação se adaptaram perfeitamente aos ambientes mais reduzidos, porém com o conforto de alimento selecionado, o bom trato na higiene, na proteção das inclemências do tempo, dos predadores, dos parasitas e doenças em geral, assim como tantos outros problemas próprios do meio selvagem.

As asas que nós seres humanos tanto vemos como sinal de liberdade, do direito de voar e desfrutar, no habitat natural precisam ser usadas para fugir, para se proteger, para buscar alimento, para brigar.

O presente artigo não tem como objetivo a busca de explicações filosóficas para essa transformação e muito menos ainda fazer juízo de valor sobre as vantagens ou desvantagens da existência de cidade como México, São Paulo, Nova York ou Tóquio.

Buscamos, no entanto, refletir sobre o fato irrefutável delas existirem irreversivelmente e das formas de convivermos com tudo que isso representa.

Do nosso ponto de vista, preservação das espécies depende das seguintes ações:
  1. Reduzir drasticamente ou ainda parar com a destruição de habitats naturais;
  2. Minimizar ou acabar como tráfico de animais;
  3. Reduzir drasticamente ou suspender o uso de agrotóxicos;
  4. Estimular a reprodução responsável em cativeiro tanto das espécies ameaçadas de extinção como daquelas que atendem ao mercado pet.
No mundo acelerado e carente de sensibilidade que hoje nos toca viver, a reprodução de pássaros em cativeiro é inegavelmente uma atividade que traz inúmeros benefícios para a saúde mental das pessoas. Ela pode ser praticada de forma totalmente responsável e respeitosa para com o meio ambiente, as espécies e a Natureza. Multiplicar a vida com respeito, dedicando todos os esforços na busca do maior bem-estar animal é uma atitude concreta que traz como conseqüência a preservação das espécies, minimiza o tráfico e enriquece a vida.

A reprodução é uma ação direta. Multiplicar a vida é cuidar dela com todo esmero jamais poderia ser visto como algo condenável. É um ato concreto de amor e respeito.

Certamente várias espécies estão totalmente livres da ameaça de extinção pelo esforço de milhares de abnegados que dispuseram a dedicar seu tempo, seu esforço e seus estudos para oferecer o que tem de melhor às suas aves, cuidando delas com mais esmero do que si próprios.

As espécies domésticas de hoje, não existiriam se eles não tivessem dedicado suas vidas na busca das melhores condições para a sua multiplicação em cativeiro. Não se tratava de pessoas perversas que adoravam ver o sofrimento dos animais, mas de seres sensíveis, responsáveis e dispostos a dar todo o seu empenho pela multiplicação da vida.

Embora pessoalmente dedicado à cria de pássaros domésticos, vejo com estupor o sofrimento de pessoas sérias, honestas e do bem simplesmente por se prontificarem a multiplicar a vida nativa e assim preservar o nosso patrimônio.

A falta de estrutura e meios para fiscalizar não deveria ser motivo de criar indiscriminadamente tantas e tão pesadas barreiras que na prática consigam desestimular e empurrar para a ilegalidade aqueles abnegados criadores. O que deveria ser aplauso virou perseguição.

O que deveria ser total estimulo em nome da preservação se transforma em barreiras, e dificuldades. Como em todos os seguimentos da sociedade, existem elementos execráveis que camuflam de criadores para praticar os mais condenáveis atos de depredação das espécies. O desvio de comportamento não esta somente no meio dos passarinheiros. Vemos esse tipo de atitude diariamente no Congresso, nas polícias e nos mais diversos órgãos públicos. Jamais deveria ser motivo para massificar as barreiras.

Vai aqui o meu reconhecimento, admiração e profundo respeito por aqueles que de forma responsável, respeitosa e sensível buscam fazer o seu papel multiplicando a vida, enquanto outros a bloqueiam.


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Fonte: Revista Passarinheiros&Cia - ano X - nº 59 - 2010 
Artigo extraído com autorização do Edilson Guarnieri - Diretor Editor 

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