domingo, 28 de dezembro de 2014

Influência das altas temperaturas na criação de aves

Por
Angélica Kuhn
Médica veterinária

A criação de canário e aves exóticas cresce em todo o Brasil. Um dos fatores que contribuem ou podem atrapalhar são os fatores climáticos, por possuirmos uma grande área geográfica passamos por várias estações do ano, variando de norte a sul do país. para entendermo como esses fatores podem afetar a criação, devemos entender fisiologia, espécie, objetivo da criação, microclima da região e nutrição, o foco dessas matéria sera a na fisiologia e clima.

As aves são animais homeotérmicos por que apresentam capacidade de manter a temperatura interna constante (41ºC), são desprovidas de glândulas sudoríparas (não transpiram) e são consideradas um sistema termodinâmico aberto, por estarem em troca constante de energia com o ambiente. Para aumenta a perda de calor, as aves adotam alguns comportamentos: agacham-se nos poleiros, matêm as asas afastadas do corpo, a fim de aumentarem a superfície corporal e aumentar o fluxo de calor para as regiões periféricas desprovidas de penas como pernas e pés (perda de calor do meio interno para o externo), outro mecanismo de perda de calor é a ofegação (evaporação respiratória), no entanto esse mecanismo é muito limitado, pelo alto gasto energético e risco de morte por alcalose respiratória.


O maior problema em áreas tropicais quentes e úmidas é o excesso de umidade relativa do ar. Esse excesso impossibilita que a ave elimine o calor interno através da respiração. Quando a temperatura alcança 25ºC acarreta um maior ofego, se a temperatura e umidade estivem alta fazem com que a ave não consiga respirar suficientemente rápido para remover o calor interno consequentemente ocorre prostração e morte.

Segundo Harrison et all, a temperatura média na criação de canários fica na faixa dos 15ºC a 25ºC e não deve exceder 35ºC. A umidade no interior da sala de criação na faixa dos 60% a 80%, mantendo a umidade abaixo desse limite minimizamos o aparecimento de doenças. Em regiões de calor altíssima umidade (acima de 90%) os surtos bacterianos, virais, fúngicos e parasitários tornam-se comuns. Em Belo Horizonte, dia 27/02/2012, a temperatura registrada foi de 30ºC às 12h e umidade de 28%, em Porto Alegre, durante o carnaval 2012 registrou-se temperatura de 37ºC a 40ºC e umidade de 12% a 20% - nesse local a umidade não é problema na questão respiração, no entanto a altíssima temperatura provoca riscos. Nessa faixa de umidade relativa do ar os filhotes em nascimento não conseguem sair do ovo, já filhotes nascidos os pais tendem a alimentar com alimentos com baixo teor de proteína, portando os filhotes desenvolvem abaixo do peso ideal, podendo crescer subnutridos (filhotes miúdos).

Quando falamos em dieta, entendemos consumo diário de proteínas, carboidratos, lipídeos, vitaminas e minerais, em dias de calor a quantidade desse ingredientes podem ser alterados na absorção e distribuição para os tecidos e órgãos. Determinados ingredientes da dieta são selecionados naturalmente, exemplo, redução no consumo de proteínas e lipídeos. Com altas temperaturas elas bebem mais água (faltar água em dia quente, implica em morte rápida por desidratação e superaquecimento do corpo).

As proteínas de origem vegetal são menos digestíveis que as de origem animal. A presença de carboidratos na dieta afeta a digestibilidade das proteínas principalmente as com alto teor de prolina como glúten de milho que são pouco digestíveis (em alta temperatura é fácil perder um psitacídeo com o uso do milho verde - primeiro por que azeda em 2 horas, segundo por que fica retido mais tempo no trato digestivo provocando diarreias bacterianas fatais, ou morte de filhotes com papo azedo). Muitas vezes em dias muito quentes e abafados, o melhor seria administrar alimentos mais fáceis de serem digeridos como frutas, legumes e verduras e sementes mais leves como alpiste puro, rações extrusadas, farinhadas em geral são deixadas de lado pela ave, lembre-se ave bem nutrida em uma estação anterior não fica fraca se em dias muito quentes receberem somente alpiste e verduras, além de água fresca a vontade.

Algumas espécies são oriundas de clima quente e seco (África) como os agapórnis, sendo mais resistentes ao calor, nunca a falta de água; os de origem Australiana podem ser oriundos de regiões quentes como as calopsitas; já as Rosellas são originárias de regiões mais frescas com umidade média; os Kakarikis da Nova Zelândia é uma região de clima frio, portanto em épocas muito quentes podem morrer por infarto agudo decorrente ao calor, inclusive adoram demais o frio e tomam banho gelado sem problemas. Os canários passam por várias modificações de raça, portanto em geral cada raça tem mais ou menos vulnerabilidade de correntes de clima, o criador deve prestar a atenção, principalmente a composição de penas e origem racial: canários de porte pesados sofrem mais com o calor que os canário de cor, no entanto os canários da raça Hoso Japonês - possuem penas bem aderidas e sofrem menos, já os Norwich - originários da Inglaterra, possuem ampla cobertura de penas (País frio) e no calor sofrem mais; o Gibber Italicu tem mais problemas com o frio do que com o calor, pois sua composição física alta e penas ralas o ajudam a perda de calor. Os canários de cor são padronizados no porte podem esconder excesso de gordura (ave obesa pode ter morte súbita) ou magreza excessiva.

Atualmente as previsões climáticas em regiões do pais tendem a prever como irá determinada época do ano na sua região, para isso uma boa programação de reprodução, em períodos mais amenos (primavera) e descanso no verão evitam dores de cabeça para o criador, ou se desejar equipar a sala de criação com técnicas que minimizam o calor no interior do criatório, basta avaliar o custo x benefício, alguns criadores matem ar condicionado, ou criam em regiões que sabidamente no versão são mais frescas como litoral e serra, mesmo assim deve ficar atento, pois em determinado dia pode haver aumento da temperatura padrão e o criador deverá utilizar técnicas para reduzir temperatura no interior do criatório (ventilador, banheiras...).

Resumindo: em dias quentes a ave bebe mais líquido, come menos, respira mais rápido, consequências não visíveis:

  • Redução de digestão de nutrientes;
  • Redução de crescimento em filhotes;
  • Redução de ganho de peso em aves que se encontram doentes nessa época;
  • Redução do número de ovos e maior aparecimento de ovos de casca mole (mesmo que a ave recebe aporte de cálcio adequado);
  • Morte súbita por alcalose respiratória (respiração de bico aberto predispõe a essa síndrome metabólica).

As aves criadas em ambiente doméstico sofrem interferências climática, visto que elas dependem 100% do bom senso do criador, a melhor maneira de manter o bem estar animal e colher os frutos com filhotes saudáveis e futuros campeões passa pela prévia organização para a escolha de um período de temperaturas mais amenas para a época de reprodução diferente em cada região do nosso imenso Brasil.

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