quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Contiuação sobre a bioacústica: Domesticação e Vocalização

Por
Dr. André Bohrer Marques

Em qualquer condição, natural ou em cativeiro, o maior fator de mudanças evolucionárias é o isolamento de uma população. Na situação de cativeiro a população é intencionalmente isolada pelo homem (Kretchmer & Fox, 1975). A adaptação de uma população selvagem as condições de cativeiro é um processo combinado de mudanças genéticas ao longo de gerações de mudanças acarretadas a cada geração pela ontogênese do animal e a sua experiência em contextos particulares (Price, 1984; Price, 1999; Monticelli, 2000). Os principais mecanismos envolvidos na transição do individuo selvagem para o domesticado são: processos genéticos não seletivos (efeito fundador, endocruzamento, deriva genética); processos de seleção natural relacionados à adaptação ao ambiente biológico (alimentos, doenças, interação com humanos e ambiente social) e ao ambiente físico (clima, abrigo e espaço) e processos ontogenéticos, como aprendizado, aclimação e experiência (Price, 1984; Price, 1999).

No processo evolutivo da domesticação são observadas alterações fenotípicas e genotípicas. Guttinger (1985) relatou em seu estudo a impressionante diferença existente na variabilidade e arquitetura sonora de canários (Carduelis sp.) selvagens e domésticos. Os selvagens mostram maior variabilidade de canto, e duas vezes mais tipos de sílabas. Neste caso, a seleção artificial sobre a criação doméstica privilegiando as repetições rítmicas longas, de notas idênticas, especialmente as de baixa frequência, podem explicar a redução da variabilidade sonora e tamanho do repertório.

Aqui no Brasil, ao verificar o manejo reprodutivo realizado pelos criadores de passeriforemes brasileiros, especialmente de curió (Sporophila angolenis) e os de bicudo (Sporophila maximilianni), observa-se que exite uma forte pressão seletiva para determinados dialetos em detrimento de outros que são rejeitados. Os filhotes ao nascerem começam a ser ensinados por tutores ou por cantos gravados (CDs). Sem dúvida, é um processo de seleção artificial que poderá representar futuras modificações na vocalização destas espécies quando comparadas com vocalizações de indivíduos selvagens. Portanto, existe um potencial de alterações na estrutura do canto, semelhante as ocorridas com o canário (Carduelis sp.) estudado por Güttinger (1985). Destaca-se que a reprodução em cativeiro do canário existe há aproximadamente 400 anos, enquanto que a criação destas duas espécies brasileiras existe somente há 40 nos.

 Muitos criatórios de pássaros brasileiros utilizam o canto juntamente com a fibra (valentia + resistência) como as principais características a serem selecionadas. As espécies em que estes padrões de seleção são mais utilizados são o curió (Sporophila angolensis) , coleiro (Sporophila caerulescens) e trinca-ferro (Saltator similis).


Bioacústica no Brasil e perspectivas


A bioacústica é uma ciência relativamente nova que alcançou grande  importância na ornitologia, sobretudo em pesquisas como taxonomia e filogenia (Rapo set al., 1998), etologia e comunicação animal (Fandiño-Mariño, 1989), variações geográficas de populações (Avelino e Vielliard, 2004), dentre outros. E pode se aliar perfeitamente com a conservação de fauna, pois para a sua prática não é necessário matar os indivíduos, pelo contrário, estes devem ser mantidos vivos. É muito importante que mais estudos bioacústica sejam realizados e divulgados, principalmente estudos envolvendo espécies da avifauna brasileira, pois, o Brasil, além de possuir uma grande diversidade de espécies a serem estudadas, também existe um grande potencial nas nossas instituições de pesquisa.     

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Fonte: Atualidades Ornitológicas Nº 146 - Janeiro/Fevereiro 2009

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